Desconstruindo Lya Luft

O artigo publicado pela escritora Lya Luft, na edição 2046, de 6 de fevereiro da Revista Veja, reflete o discurso de boa parte da grande imprensa brasileira, um discurso de manutenção da hegemonia elitista referente à cotas para afro-descendentes, indígenas e alunos oriundos de escolas públicas. A idéia deste post, além de buscar a desconstrução do artigo, como proposto no título, é tentar mostrar um novo olhar sobre o sistema de cotas no Brasil.

Começo por duas orações que constam no artigo de Luft. “A idéia das cotas reforça conceitos nefastos: o de que negros são menos capazes…”. / “Não entram na universidade por mérito pessoal e pelo apoio da família, mas pelo que o governo, melancolicamente, considera deficiência: a raça ou a escola de onde vieram”

Oposto aos adeptos do sistema de cotas, existem os meritocratas, que defendem o mérito como único meio de ter acesso à universidade. A ideologia meritocrata é explicitamente vista neste ponto do texto de Luft. O problema é que este discurso elitista esquece que os cotistas não são escolhidos a dedo, ou pensa que são indicados por líderes do movimento negro. Os alunos cotistas disputam, entre si, as vagas e ingressam na universidade por mérito. Esta disputa é crescente a cada ano nas instituições que adotam o sistema, e podem, futuramente, ser até superiores à concorrência não-cotista, em estados de maioria da população negra, como a Bahia. Portando, o cotista é merecedor de sua vaga tão quanto o não-cotista.

Luft também é infeliz ao dizer que as cotas reforçam a idéia de que “a escola pública é péssima e não tem salvação”. Esta oração nos leva a outra abordagem feita pelos contrários ao sistema de cotas, a de que a solução é a melhoria da escola pública. Isto, de certa forma é correto. Temos que melhorar sempre a escola pública, mas e os jovens negros e pobres de hoje? Eles vão esperar pela “Nova Escola Pública” ou vão competir em total desigualdade com os alunos oriundos de escolas particulares, que em sua grande maioria não trabalham, têm aulas de reforço escolar ou fazem cursinhos pré-vestibulares?

Voltando à questão meritocrata, quem possui mais mérito? O negro pobre, de escola pública, que trabalha no contra-turno escolar para colaborar com a renda familiar e passa, através das cotas, com uma nota 7, ou o aluno da rede particular, com o perfil do parágrafo anterior e é reprovado, por conta das cotas, com nota 8? Olha a situação de desigualdade.

A escritora também mostra seu interesse em desconceitualizar as políticas públicas, colocando-as como “bondades”, e descarta a sua importância ao dizer que são destinadas a uma minoria. Só em Lauro de Freitas, cidade onde moro na Bahia, 82% da população é composta por afro-descendentes. Uma política pública voltada para este perfil, que se reflete também em Salvador, com certeza não é para minoria.

Lya Luft lembra a Lei do Boi, para tentar desmoralizar o atual formato das cotas. Esta lei sim foi uma manobra, inclusive elitista, para colocar filhos de fazendeiros, amigos do modelo ditatorial, no ensino superior. A autora também tenta desconstruir as cotas colocando o ponto de que elas não são para todos. “E os pobres brancos, os remediados de origem portuguesa, italiana, polonesa, alemã, ou o que for, cujos pais lutaram duramente para lhes dar casa, saúde, educação?

Pelo próprio sobrenome da autora, que deve ser de origem alemã, e todos os outros nomes e marcas que aparecem facilmente na mídia (Civita, Mainard, Bonner, Todeschini, Tramontina, Tidelli, Miolo, Odebrecht), nós percebemos que eles não precisem tanto de cotas quanto os “da Silva” do subúrbio paulista, carioca ou soteropolitano, até porque já receberam as suas “bondades”. Os italianos, quando chegaram ao Brasil, ao contrário dos negros que aqui já viviam, recebram uma espécie que cotas, que lhes davam o direito de proriedade de terras. Daí a prosperidade. Mesmo que na época o nome não tenha sido “cota”, foi uma política pública, que hoje reflete em nomes no topo da economia nacional.

As cotas são uma política pública importante, não só para que alunos negros, pobres e oriundos do ensino público possam disputar em situação de igualdade uma vaga no ensino superior, mas também para que este jovem de baixa renda saiba que a universidade é um espaço seu e que deve ser ocupados por jovens como ele. O artigo de Luft é quem realmente se comporta como massa de manobra de uma imprensa e de uma camada social preconceituosa e conservadora.

One Response to “Desconstruindo Lya Luft”

  1. Ave amigo cartiano da descontrução…vejo que as aulas de análise do discurso funcionaram…muito bom!

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